Discussão no festival Eletronika 2009 abordou passado, presente e futuro da música sobre diferentes perspectivas:
“Depois de um debate como este, a que conclusões nós podemos chegar?”
- A nenhuma brother! – foi à resposta de Rafael Ramos, da gravadora Deckdisc. Um tanto desconcertante, mas não deixa de ser, parcialmente, verdade. Em parte, porque o futuro da música é realmente um mistério, e tentar prevê-lo com precisão não parece sensato. Mas o festival trouxe convidados muito interessantes às discussões.
Nos dois primeiros dias, a palestra de André Midani, ícone da indústria fonográfica no século passado, e o debate de Benoni Hubmaier (YB Music) e Rafael Ramos (Deckdisc), mediado por Douglas Vieira, apresentaram alguns pontos de contato.
O primeiro é um tanto óbvio: as indústrias fonográficas não podem ficar nos mesmos moldes dos de 20 anos atrás. André Midani responsabilizou as gravadoras por isso: “os tecnocratas não sabem muito sobre arte”. Para Midani, faltou sensibilidade tanto no tratamento do artista como para captar as mudanças tecnológicas. Já Rafael Ramos chegou a dizer que “o que havia há 20 anos era uma farra. Os coroas podem implicar comigo, mas é verdade”. Benoni falou de sua experiência: “Não somos gravadores, somos produtores”. Ele disse que a YB Music sempre investiu num som mais alternativo, e que o principal papel dela é firmar o artista.
Outro ponto é a constatação da pirataria ameaçando a música. Assunto que rende bastante polêmica, mesmo no campo da ética. Revender um produto falso que outra pessoa produziu vem deixando de ser o caminho mais fácil. Midani responsabilizou principalmente o grande mercado chinês e Rafael relativizou a prática: “vamos pôr na conta do economicamente inviável”. E o que dizer dos downloads gratuitos da internet? Para Midani, o erro das indústrias foi transformar os jovens em inimigos. A real ameaça vem das fábricas de softwares e hardwares. Ele também afirmou que o downlaod não é uma grande ameaça para o artista consolidado, e sim pra o novo, “talvez porque, ao invés de fazer show pra vender CD, o músico vende CD pra fazer show.” Benoni, pelo contrário, acredita numa utilização do download gratuito como tática de divulgação para novos artistas, mas vê como insustentável a produção musical gratuita. Já Rafael foi enfático em dizer que é responsabilidade de todos, especialmente dos artistas, “não falarem merda”. Ele condenou a atitude do Forfun em se orgulhar de suas músicas terem batido recordes de download, tudo de graça: “Pior é que eles tiraram uma onda fudida com isso.”
A revolta de Rafael, que trabalha neste segmento, põe em pauta mais uma questão: como o mercado ajuda o músico? E como ele atrapalha? Midani apontou o último século como um fracasso das grandes indústrias, que transformaram as composições da música em processos judiciais. Benoni ressaltou a falta de limites com o advento da internet: “Antes as lojas de música tinham a limitação do espaço. Agora tudo pode ser publicado, mas é mais difícil ser acessado”. As gravadoras continuariam tendo, então, o papel de dar visibilidade para o artista.
E o futuro? Bem, Midani pôs nas mãos dos jovens, e mesmo com toda sua experiência não se arriscou a grandes profecias. O que é certo é que a música não vai morrer. Resta saber como ela vai viver.
Gáudio Luiz
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